domingo, 19 de novembro de 2017

Pensado sobre o preconceito

O Brasil te            
        O final da escravidão não significou o fim na separação entre brancos e negros e consequentemente do preconceito presente nas relações sociais. O racismo durante um longo período da história brasileira foi exercido explicitamente, não são raros os relatos de casos em que negros foram impedidos de frequentar lugares, integrar times de futebol, associações ou clubes recreativos, “em São Paulo, ‘a segregação atingia certas praças, avenidas ruas, e até bares. O espaço público ficava cindido: onde o negro colocava o pé, o branco não frequentava e vice-versa.” (Domingues,2000 apud GOMES, 2008 p. 273)
     O discurso vigente no Brasil é que não somos um país racista, pode-se até admitir que existem episódios de preconceito racial, contudo, estes não refletem uma prática da maioria da população brasileira. No entanto, de acordo com pesquisa realizada por Venturini e Paulino (1995) apud CAMINO, s.d. p 21 89 % dos brasileiros reconhecia a existência de preconceito racial no Brasil, mas somente 10% admitia ser pessoalmente preconceituoso.
      Com tudo, os dados acima, refletem que apesar das leis e das campanhas de conscientização contra o racismo, este continua ocorrendo em nossa sociedade, mas agora com uma outra apresentação, ou seja, os atos discriminatórios ocorrem de forma mais sutil, mascarado em brincadeiras e frases que aparentemente são carinhosas, mas refletem um pensamento racista que perdura há várias gerações. De acordo com LIMA e VALA, 2004, p. 403 “No Brasil, uma análise mais cuidadosa das características positivas atribuídas aos negros indica uma nova e mais sofisticada forma de preconceito, uma vez que os estereótipos positivos aplicados definem claramente papéis sociais específicos para este grupo.” 
      Com isto podemos perceber que  no imaginário social brasileiro, a figura do branco, do europeu, sempre esteve associada ao sucesso, a aspectos positivos. Ter a pele branca significa  de certa forma ser pertencente a categoria dos vencedores. Esta idealização de um padrão, europeu, também encontra-se no interior da famílias inter raciais , onde  o racismo ocorre, na maioria dos casos, de maneira muito mais sutil  se comparado com a sociedade como um todo,  mas nem por isto, deixa de ser  prejudicial  principalmente as crianças, que desde muito novas aprendem que ser chamado de negro é racismo mas ao mesmo tempo, são submetidas, principalmente as meninas a processos de alisamento de cabelo, com o objetivo de “tornar o cabelo bom”, liso. Ou seja, contribuindo desta forma para reforçar a construção negativa da auto estima destas crianças.
       Realizei com meus alunos uma atividade de autorretrato, levei para a sala um espelho e solicitei que cada um se desenhasse,após chamei individual para que me dissessem qual era sua cor.
      O autorretrato foi uma atividade que mexeu muito com algumas crianças principalmente duas meninas cujo o pai é negro e a mãe é branca, uma dessas alunas relatou por diversas vezes situações de racismo  sofridas pelo pai ou outro familiar, assim como, ela tem claramente na sua concepção que existe diferença de tratamento  relação as pessoas negras.
             Refletindo sobre esta atividade percebo como ainda tenho um longo a trilhar, se faz necessário   um trabalho efetivo contra o racismo e um resgate histórico em relação aos negros e sua cultura. Infelizmente nos detemos neste temas quando em nossas  salas  ocorrem  situações de preconceito ou na Semana da Consciência Negra. 
           Nós enquanto escola também,ao lado da família, somos um espaço privilegiado par resgatar a autoestima destas criança, reconstruir com ela a história de suas famílias, conversamos sobre a escravidão e seus malefícios mas também mostra a resistência deste escravos que se utilizaram de múltiplas estratégias para resistir e preservar sua cultura. Cultura esta que ultrapassa o mundo da música ou da culinária. Entretanto, para a escola ser um espaço de resistência e de resgate da cultura e da identidade africana, é necessário que os educadores estejam em constantes cursos de aperfeiçoamento, pois, muitas vezes reproduzimos em nossas sala o preconceito que julgamos estar combatendo. “ É de suma importância que o/a professor/a se veja como produtor/a de história, de conhecimento de ações que podem transformar vidas, [...]” ( ROCHA e TRINDADE, 2006, p. 66).


Referências:

   CAMINO, Leoncio, et.al. A face oculta do racismo no Brasil: uma análise psicossociológica . Revista psicologia política

GOMES,F.R., MAGALHÃES, M.L. Sport Club Cruzeiro do Sul e Sport Club Gaúcho: associativo e visibilidade negra em terras de imigração europeia no RS.  RS- Negro cartografias sobre a produção de conhecimento.  Governo do Estado do Rio Grande do Sul, 2008.

LIMA, Marcus E. O. . VALA, Jorge. As novas formas de expressão do preconceito e do racismo. Estudos de Psicologia, 2004, 9 (3), 401 – 411.

ROCHA, R. M., TRINDADE, A. L. (org.)  Ensino Fundamental. Orientações e Ações para a Educação das Relações Étnico-Raciais.  Ministério da Educação / Secretaria da Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade. Brasília: SECAD, 2006.

 SENKEVICS, Adriano Souza, et. al. A cor  ou raça nas estatísticas educacionais: uma análise dos instrumentos de pesquisa do Inep. Brasília -  DF Inep/Mec, 2016

SILVA, Petronilha B. G. Aprender, ensinar e relações étnico-raciais  no Brasil. Porto Alegre/ RS, ano XXX ,n. 3 ( 63) p. 489 -506, set./dez. 2007
  

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